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terça-feira, 12 de março de 2013

Como Morrem os Pobres - George Orwell


Todos conhecemos Orwell. Seus livros mais famosos tiveram repercussão mundial, se introduziram em nosso vocabulário, em nossas aulas de história... enfim, de 1984 e Revolução dos Bichos, entre outros, já conhecemos quase tudo. Mas não é da faceta romancista de nosso escritor inglês que vou tratar: "Como Morrem os Pobres" é uma demonstração de seu talento como cronista/contista.

A edição que tenho em mãos, da Companhia das Letras, não deixa de estar dividida em alguns eixos: uma parte fala das experiências do autor em meio aos mendigos, andarilhos, colhedores de lúpulo (inclusive esses textos não foram assinados usando o pseudônimo George Orwell - e sim o nome verdadeiro dele, Eric Blair); outra são ensaios que tratam do emprego da linguagem e da honestidade intelectual; a última, de costumes ingleses e assuntos mais inconsequentes.

A primeira parte é minha favorita, pelo tema. Muitas pessoas gostam de usar o livro como um tampão, interpondo-o à "vida que acontece lá fora". Essa mania parnasiana não deixa de ser lamentável, e a praticamos de forma inconsciente. Por isso é muito interessante ter contato com outra realidade social por meio de crônicas como as de Orwell, que falam da realidade dos andarilhos ingleses. É apenas triste observar que lendo-as, temos a impressão de que a situação no Brasil atual é a mesma.

Da segunda parte pode-se dizer que é composta de ensaios. Há neles a defesa de uma linguagem mais concisa, menos empolada e burocrática - outro aspecto que infelizmente sobrevive. Muita coisa mudou dos anos 30 pra cá: entretanto, a tentação de parecer inteligente à custa da lógica e da compreensão (do que se diz) sobrevive.

A terceira é deliciosamente "fútil": fala de costumes ingleses como a preparação de um bom chá, como seria o pub ideal, sobre o esporte na Inglaterra (aqui vemos uma reflexão mais séria, acerca de como as competições esportivas acirram o nacionalismo). Contudo, não quero que pareça assim que o resto do livro é cansativo, ou algo assim: é sempre um prazer ver uma pessoa defender suas posições tão claramente como Orwell.

É nisso que consiste toda a admiração que as pessoas nutrem por ele: George (sintam a pretensa intimidade) não é um gênio de sua geração, não tem um estilo de escrita inovador ou algo assim. Ele simplesmente diz tudo (e mais um pouco) que gostaríamos de dizer também, sem a arrogância típica de grande parte dos ensaístas.

Enfim, quero ser George Orwell quando crescer.

"Em nosso tempo, o discurso e a escrita política são, em grande medida, a defesa do indefensável. Podem-se defender coisas como a continuação do domínio britânico na Índia, os expurgos e as deportações russas, as bombas atômicas jogadas sobre o Japão, mas somente com argumentos que são brutais demais para a maioria das pessoas e que não estão de acordo com os objetivos declarados dos partidos políticos. Desse modo, a linguagem política precisa constituir, em larga medida, em eufemismos, argumentos circulares e pura imprecisão nebulosa. (...) Mas, se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento. "

(Trecho do ensaio "A Política e a língua inglesa")

Indicado por Heloisa.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A Revolução dos Bichos - Parte II - Animals (Pink Floyd)


[gotta admit that I’m little bit confused
sometimes it seems to me as if I’m just being used]

Terminamos 2012 com o especial da Laranja Mecânica, e adentramos 2013 com um especial divido em duas partes a respeito da obra A Revolução dos Bichos, de George Orwell. Como vocês podem ter reparado este especial possui um propósito diferente, que não é apenas prender-se no livro, mas sim também compara-lo com outra genialidade, mas desta vez musical: Animals, álbum da banda inglesa Pink Floyd. E após a excelente resenha de ontem de nossa amiga Amanda, sou eu, Junior, quem tomarei as rédeas dessa segunda parte de nosso especial.

Admito pra vocês que não sei como começo por aqui. Não é tão fácil assim falar de Pink Floyd. É algo deveras complexo pra expor de forma sucinta uma banda que possui uma história relativa ao tamanho de sua música Echoes.

Em 1977, o Pink Floyd lançou um álbum conceitual chamado Animals, no qual pauta-se em uma crítica severa no sentido político-social. Álbum este que foi totalmente baseado no livro A Revolução dos Bichos, mas que não se prende apenas a isto. O Pink Floyd utiliza de recursos do livro para abrirem suas próprias vertentes. Um pouco diferente do livro, que é uma crítica ao stalianismo, Animals trata-se de uma crítica ao capitalismo, principalmente a indústria musical.

O álbum possui 5 músicas é dividido em três grupos animalescos (cada um representando uma música): Dogs (cachorros), Sheeps (ovelhas) e Pigs (porcos). As outras duas músicas do álbum, que são Pigs On The Wing (Part One) e Pigs On The Wing (Part Two) são mais como uma casca do álbum, como se fossem uma abertura deste (Part 1) e um encerramento (Part 2). Estas duas músicas pouco tem a ver com o conceito em si do disco, tratam-se de duas letras que Roger Waters (baixista da banda) compôs para a sua namorada da época. Então vou analisar mais as três músicas principais, individualmente, que são as que se traçam um paralelo com o livro. No final, deixarei um trecho traduzido de cada música.

1. A começar pela faixa Dogs (cachorros, do inglês):

No livro de Orwell os cachorros são mostrados como os homens da lei, seja a polícia ou exército. Aqueles que protegem de qualquer forma os porcos, mas também desejam ser como eles. Os cachorros são moldados pelos porcos para agirem de acordo com a vontade destes. Pode-se dizer também que os cachorros representam aquela parcela corrupta pela qual o sistema cria. A parcela gananciosa, que não possui todo o poder, mas sempre está próximo ao sistema, e segue ao seu acordo.

Nesta faixa do Pink Floyd, o conceito de cachorros não se diverge muito do livro. Na música, os cachorros (Dogs) são mostramos como aqueles que procuram tornarem-se porcos, fazem qualquer coisa para poder subir na hierarquia. Usam de seu poder para a ganância, de forma quase maquiavélica, a fim de obterem o que querem através da submissão dos outros. O mais curioso é que no final desta faixa, são mostrados os cachorros condenando-se moralmente. Como se no fim percebessem todos os seus atos, e sentissem o extremo arrependimento e remorso por quem foram durante a vida.

“E passado algum tempo você pode trabalhar em pontos por estiloComo a gravata e um firme aperto de mãoUm certo olhar nos olhos e um sorriso fácilVocê tem que passar confiança para as pessoas que você mentePara que quando elas virarem as costasVocê tenha a chance de enfiar a faca”

2. Segue a análise da próxima faixa do disco, que é a Pigs (porcos, do inglês):

Na obra de George Orwell, porcos são aqueles que através de sua capacidade, tiram proveito de todo o resto da população. Colocam-se no topo da hierarquia, e usando a desculpa de que, apesar de os animais viverem em uma sociedade igualitária, eles precisam de um líder, os porcos trazem para eles todas as regalias possíveis.

Nesta música do disco, a banda traça os porcos (Pigs) como o próprio sistema. Aqueles que detêm o poder, a política escrófula e sádica em si. Assim como no livro de Orwell, os porcos são mostrados como aqueles que utilizam meios manipuladores, enquanto fingem para a população que absolutamente nada está acontecendo, e que a vida está muito melhor do que jamais fora. Aqueles que mudam o próprio sistema que eles criaram, a fim de sempre tomarem a melhor vantagem possível.

Uma coisa extremamente genial na música é que a banda faz críticas diretas a Mary Whitehouse, uma velha militante e conversadora inglesa que propagava discursos contra a banda. Ei, você, Whitehouse, que charada você é. Haha.
“Grande homem, homem porco, que charada você éUma próspera roda gigante, que charada você éE quando sua mão está sobre o seu coração,Você é quase uma risada,Perto de ser um piadista”

Por fim, vamos ao último bloco do disco, a música Sheeps (ovelhas, do inglês):

Em seu livro, Orwell retrata as ovelhas (e os demais animais) como a população em si. Mas as ovelhas recebem um “quê” a mais porque mostram-se como as mais submissas e alienadas possíveis. As ovelhas representam aquela população que simplesmente segue cegamente o líder, repetindo absolutamente tudo o que este manda as dizer, sem ao menos contestar nada, ou parar para pensar sobre o que tudo aquilo significa.

Na música do Pink Floyd, as ovelhas (Sheeps) são retratadas da mesma maneira. São a classe que está por aí, vivendo com medo dos cães, seguindo o seu líder, e completamente alienados pelo seu sistema. Há também uma crítica à igreja nesta música, pela forma como um ser pode se submeter a algum dogma, sem questioná-lo. No final da música, é dito que os “cães estão mortos”, como se os próprios porcos tivessem acabados com aqueles que os ameaçavam.
“O que você ganha fingindo que o perigo não é real?Submissos e obedientes vocês seguem o líderDescendo pelo trauteados corredores, em direção ao vale da morteMas que surpresa!Um olhar terminal choca seus olhosAgora as coisas são o que realmente parecem ser.Não, isto não é um pesadelo.”

E desta forma, encerra-se um dos álbuns mais geniais lançados no século XX, baseado na bela obra de Orwell.

Ouçam o álbum.


Indicação do Luiz A. Jr.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A Revolução dos Bichos - George Orwell


Olá, senhoras e senhores da Posso te indicar um livro?! Nosso último especial antes de voltarmos com a publicação normal de três indicações por semana é a indicação de Revolução dos Bichos – que será dividido em duas partes: a primeira, uma análise literária e política da obra; a segunda, a análise do livro de George Orwell e o álbum Animals, da banda Pink Floyd, uma vez que a música é inspirada no texto.

Revolução dos Bichos foi (arduamente) publicado em 1945 e apontado pela Time como um dos cem melhores romances em língua inglesa da história da literatura. Obra e autor, que jazem nesse nível de garbo, trazem polêmica até hoje quando são discutidos.

Tendo isso em vista, um detalhe importante para o prosseguimento da resenha: George Orwell era socialista. Guardem.

Neste conto de fadas, numa certa fazenda denominada Granja do Solar, havia certos animais e certo porco chamado Major, que reúne seus companheiros numa noite para falar de um sonho que tivera, um sonho de liberdade e não de servidão aos exploradores humanos. Os outros bichos se encantam com a idéia, e sonham em como será viver em comunidade, exercendo sua natureza livre e sua força de trabalho em seus próprios interesses. Três dias depois, o velho Major morre, deixando seus ideais de luta aos bichos e a particularmente dois porcos: Bola-de-Neve e Napoleão, que passam a organizar os animais em um movimento clandestino para a derrubada do humano proprietário da fazenda, o Sr. Jones.

Como toda boa revolução, há um ideal, os princípios ensinados por Major que são transformados pelos letrados porcos em uma filosofia denominada “Animalismo”; um herói, o velho Major; e um hino, a canção Bichos da Inglaterra. Segue um trecho:

“Bichos ingleses e irlandeses,
Bichos de todas as partes!
Eis a mensagem de esperança,
No futuro que virá!

Cedo ou tarde virá o dia,
Cairá a tirania
E os campos todos da Inglaterra
Só aos bichos caberão!

Não mais argolas em nossas ventas,
Dorsos livres dos arreios,
Freios e esporas, descartados,
Chicotadas abolidas!

Muito mais ricos do que sonhamos
Possuiremos daí por diante
O trigo, o feno, e a cevada,
Pasto, aveia e feijão!”

Para cortar os entrementes, a Revolução se dá e os humanos são expulsos da fazenda. Contudo, Bola-de-neve e Napoleão têm divergências na administração da agora Granja dos Bichos. Uma ninhada de cachorrinhos nasce de uma das cachorras da fazenda e o porco Napoleão toma para si a educação dos filhotes assim que desmamam, ninguém mais tendo notícias deles. Isto também é importante.

A partir de uma divergência sobre a construção de um moinho para poupar os esforços dos bichos com o uso de energia elétrica, Napoleão surpreende. Pega seus nove cachorrinhos – agora enormes e ameaçadores cães que só o atendem (uma vez que foram criados pelo porco) e dá um golpe de estado em Bola-de-neve, expulsando-o da Granja.

O talento de Orwell é sensacional em fazer um paralelo fantasioso com a realidade concreta que pretende criticar. Revolução dos Bichos é uma paródia, uma crítica da Revolução Russa e da maneira como ela se conduziu. Major é Marx e/ou Lênin, o ideólogo que fornece a base teórica para um mundo de cooperação, trabalho e solidariedade entre os animais (socialismo e comunismo travestidos de animalismo). Bola-de-neve é Trótski, aquele líder apoiado na teoria que queria realmente fazer as coisas funcionarem, e que foi o mais corajoso quando os humanos tentam retomar a granja, o que mais incentivou os bichos no trabalho e na organização da qualidade de vida.

Já Napoleão figura Stalin, que perverte toda a ideologia de Major e transforma a Granja dos Bichos na sua ditadura pessoal. Aqui, todos os elementos de propaganda do partido comunista Russo são inseridos (os mesmo do partido Nazista, Fascista, da Coréia do Norte, a China de Mao, etc etc etc). Napoleão é um bravo herói, Bola-de-neve um traidor e desertor. Há desfiles, a música Bichos da Inglaterra é substituída por outro hino, já que Napoleão alega que esse era o hino da revolução e a revolução era passado. Eventualmente, porém, eram três elementos que mantinham verdadeiramente a ditadura de Napoleão: o primeiro, a grande ignorância dos bichos em geral; o segundo, os nove cães que amedrontavam a todos e o terceiro, o porco chamado Garganta, hábil em discursos e em convencer os demais animais de qualquer coisa.

O tempo passa e os bichos já não se lembram de como era viver sob o domínio dos humanos; permanece, porém, a ojeriza inicial a eles, sintetizada nos sete mandamentos iniciais do animalismo, de antes da revolução:

“1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupas.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais”

Todos os animais eram iguais no início, porém, sob o domínio de Napoleão e a partir da ignorância dos demais, as coisas vão sendo transformadas. As rações vão sendo cortadas, o trabalho é maior, mas com a ajuda dos discursos de Garganta, todos ainda se convencem de que estão melhores do que antes – apesar da horrível situação de exploração, medo e dominação em que se encontram.

Os princípios ideais vão sendo transformados – uma sacada b-r-i-l-h-a-n-t-e do autor, como por exemplo:
“4. Nenhum animal dormirá em cama com lençóis.
5. Nenhum animal beberá álcool em excesso.
6. Nenhum animal matará outro animal sem motivo.”

Por fim, todas as máximas são substituídas na calada da noite por outra – a suprema genialidade de George Orwell e suprema subversão da idéia original dos bichos:

“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.”

Há centenas de outras coisas que eu adoraria colocar aqui, mas realmente, a resenha não terá mais fim. Antes de terminar, contudo, lembra-se de quando eu disse que era importante que a idéia de que George Orwell era socialista fosse lembrada durante a leitura? Pois bem.

É importante esclarecer que a teoria do socialismo e do comunismo é bastante diferente de suas aplicações no mundo político de hoje. Porém, Orwell ao escrever Revolução dos Bichos (que até seria usada posteriormente como propaganda negativa pela América na Guerra Fria) e ao escrever suas outras obras, como 1984, cai numa armadilha: a de enterrar a ideologia em que ele próprio acreditava.

Reformulando: Orwell não enterra a teoria. Ele enterra sua viabilidade, de certa forma, quando exalta sua fácil perversão nas mãos de quem não enxerga outro propósito a não ser o próprio. Nas mãos de quem, mesmo por instituição da maioria, tem o poder depositado em si e tem os elementos necessários para mantê-lo.

Para terminar, o último trecho do livro. Lembra-se de como no início, os animais queriam apenas e tão somente libertar-se dos humanos? A verdade é que no fim – sob perversão – não há distinção entre bom e mau, entre humanos e porcos.

“O Sr. Pilkington referira-se o tempo todo à "Granja dos Bichos". Naturalmente ele não podia saber – mesmo porque Napoleão o estava proclamando, naquele instante, pela primeira vez – que a denominação "Granja dos Bichos" fora abolida. A partir daquele momento, sua granja voltaria a ser conhecida como "Granja do Solar", que, aliás, parecia-lhe, era seu nome correto e original. Senhores – concluiu Napoleão, levantarei o mesmo brinde, mas sob forma diferente. Encham, até a borda, seus copos. Senhores, este é o meu brinde. À prosperidade da Granja do Solar! Houve as mesmas calorosas felicitações de antes, e os copos foram esvaziados. Mas aos olhos dos bichos, que lá de for a espiavam, pareceu que algo estranho estava acontecendo. Que diabo teria alterado a cara dos porcos? Os olhos embaçados de Quitéria iam de uma cara para outra. Algumas tinham cinco queixos, outras quatro, outras três. Mas alguma coisa parecia misturá-las e modificá-las. Então, findos os aplausos, o grupo pegou novamente nas cartas, recomeçando o jogo interrompido, e os animais afastaram-se silenciosamente. Não haviam, porém, chegado sequer a vinte metros quando se detiveram, ante o vozerio alto que vinha lá de dentro. Voltaram correndo e tornaram a espiar pela janela. Realmente, era uma discussão violenta. Gritos, socos na mesa, olhares suspeitos, furiosas negativas. A origem do caso, ao que parecia, fora o fato de Napoleão e o Sr. Pilkington haverem, ao mesmo tempo, jogado um ás de espadas. Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”

Senhoras e senhoras, esperamos que tenham gostado. Amanhã segue a segunda parte da resenha, que relacionará a obra e a música do Pink Floyd.

Até o retorno normal das resenhas!
Indicação da Amanda.