Mostrando postagens com marcador chico buarque. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador chico buarque. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Leite Derramado – Chico Buarque

“Não choremos o leite derramado”

Cá estamos nós de novo. Estou escrevendo de novo – numa sexta-feira e para a Posso te indicar um livro?
Bem, para a minha volta decidi indicar um livro assinado pelo compositor Chico Buarque. No tempo ativo da página eu já havia assinado uma outra resenha sobre outro livro do Chico (que você confere aqui: http://migre.me/hRTVL) o Budapeste.
Lembro que naquela resenha atentei para a qualidade literária do Chico – é dizer – Autor e obra se distanciam MUITO naquele livro. Quando você começa a ler, pensa HÁ, é o Chico contando sobre uma ida dele e a Budapeste... E não é nada disso, o livro em primeira pessoa, cativa, e captura o leitor. O mesmo acontece em Leite Derramado (agora sim, o meu lenga lenga acabou e eu estou finalmente indicando o que vim indicar).
Leite Derramado, tem todas as qualidade que eu mencionei que Budapeste tem, com um adicional, é outro livro! E nos mostra a versatilidade enorme de Chico Buarque, é um livro bem diferente do Budapeste, e isso é simplesmente fantástico.


O Livro começa com um velhinho numa cama de hospital. Ele está conversando com a enfermeira, com a filha, e com quem mais quiser ouvir, no caso, ele está conversando mais precisamente com o leitor no final das contas, então, de inicio nós achamos o velhinho bem chato e falador, mais aos pouquinhos vamos nos afeiçoando a ele.
O velhinho é Eulálio D’Asumpção, que veio de uma família muito rica e esteve – há várias gerações – ligada a momentos importantes da história do Brasil, e é aqui que mora o grande diferencial do livro. Eulálio vai contando tudo que lhe aconteceu durante a vida, sem medo, pois como parece ele está num leito de hospital e está quase encontrando o final de sua vida. Então ele começa a lembrar o passado, e vai lembrando, sem se preocupar muito bem com a ordem cronológica dos acontecimentos. Nos conta sobre o amor por Matilde, a história do neto revolucionário que morreu durante a ditadura militar, tudo isso se costurando e conectando com o presente, onde ele nos conta sobre a filha que está atualmente cuidando dele, e como está irritado pelo tratamento que vem recebendo...
O interessante aqui é que Eulálio não está lamentando as vicissitudes de sua vida passada, ou as coisas ruins que aconteceram ao longo de sua vida, ele apenas está contando, é como um velho que está narrando sua vida, então é interessante pensar que o título do livro – como era de se esperar – faz referência sim ao famoso ditado: “Não adianta chorar pelo leite derramado”, mas vai para além disso, é simplesmente um homem comentando o leite derramado.


Eulálio é chato – sim eu disse chato – mas aos decorrer da narrativa o velhinho vai ganhando a nossa simpatia, aos pouquinhos nós vamos gostando mais e mais dele, e lá pelo meio do livro nós já esquecemos a chatice dele e nos afeiçoamos por ele, e vamos nos interessando cada vez aos causos que ele vem contando.
Outro diferencial do Budapeste, é que aqui cada capítulo é basicamente uma nova história, um novo acontecimento na vida de Eulálio, e sempre tendo como pano de fundo a história do Brasil, o que dá ao livro um sabor ainda mais especial (ainda mais para os apaixonados por história, como eu), Eulálio tece sua narrativa passando pelo Império, a primeira República, a ditadura militar e a atualidade, além de comentários sobre outros períodos e épocas do Brasil, e Chico Buarque consegue nos fazer estar por dentro disso tudo, sem didatismos, sem nada que pareça artificial.


Sim, eu já elogiei a qualidade literária de Chico, então, se tudo que eu falei não te convencer a parar tudo que você estiver fazendo e ir correndo ler Leite Derramado, falo que o livro é muito bem escrito, flui que é uma maravilha – dá pra ler no ônibus, no metrô, na rua, esperando o taxi, sentado na praça, andando no sol, se protegendo da chuva... E além de tudo nos guarda várias surpresas ao longo de sua narrativa. Não seria legal descobrir quais são elas?
A página está voltando, Espero que vocês estejam gostando então não deixem de dar o feedback. Eu volto a escrever no domingo, assinando uma crônica/coluna sobre bibliotecas, espero todos lá.

Indicação do Aion
[Ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida]

sábado, 13 de abril de 2013

Budapeste – Chico Buarque



“Apaguei a tevê, no Rio eram sete da noite, boa hora para telefonar pra casa; atendeu a secretária eletrônica, não deixei recado, nem faria sentido dizer: oi querida, sou eu, estou em Budapeste, deu um bode no avião, um beijo.”
Ao abrir Budapeste, várias coisas vem a nossa cabeça, para quem não conhece os romances do Chico, há de se pensar que é o cantor contando uma aventura dele em Budapeste. Mas não é, a medida que as páginas avançam, narrador (o livro é todo em primeiro pessoa) e autor se distanciam, e isto torna o livro simplesmente fantástico.

José Costa, um ghost writer, que trabalha numa agência com o amigo Álvaro, conta logo no inicio como acabou em Budapeste, graças a um pouso inesperado, a companhia acabou lhe ofertando uma noite num hotel, e ele então ligou a TV que apresentava uma jornalista falando em húngaro, nas palavras de Costa: “Dizem as más línguas, que o húngaro é a única língua que o Diabo respeita”. O fascínio do escritor pelo idioma, despertado na viagem é então trabalhado por todo o romance, assim como seus envolvimentos amorosos, a mulher no Brasil, Vanda, que trabalha apresentando um telejornal, e Kriska, sua professora de húngaro em Budapeste, quando José volta a cidade, os dois casos amorosos são dois pontos altos da narrativa, porque mesmo traindo ambas as mulheres José de certa forma as ama verdadeiramente, sabemos disso porque temos acesso aos seus pensamentos, e a maneira como as coisas acontecem, a briga com Vanda, o envolvimento com Kriska, faz com que, mesmo que equivocados perdoemos as atitudes de José.

Outro ponto interessante do livro, é o fato de José trabalhar como Ghost Writer, e não se sentir mal com isso, ele escreve livros que são assinados por outras pessoas e de certa forma recebe bem por isso. Em certo ponto da história ele escreve um livro para um alemão Kasper Krabble, O Ginógrafo, sua mulher lê o livro e fica encantada pelo alemão, sem se dar conta que na realidade o livro foi assinado por seu marido em meio a um casamento que mostra sérios sinais de desgaste.
Em meio a todo esse furacão, e ainda fascinado pelo idioma húngaro, José volta a Budapeste, e lá conhece Kriska numa livraria, ela começa a dar aulas a ele, e lá pelas tantas os dois acabam se envolvendo, e na Hungria José Costa acaba arrumando emprego numa editora para fazer exatamente o que fazia no Brasil, com a diferença que em húngaro, diferentemente do português, ele sabe escreve poesia. O livro é repleto de tiradas de José sobre ser escritor, sobre sua criatividade, sobre seus trabalhos, sobre sues medos e anseios, e sobre como ele se sente bem, mesmo não sendo reconhecido, com seu trabalho sendo elogiado, O Ginógrafo vende como água, e as pessoas passam por ele na livraria falando bem do livro, sem nem imaginar que ele é o real escritor do mesmo.

As idas e vindas de José de Budapeste, suas aventuras com desconhecidos até conhecer Kriska, suspense leve bem apresentando aqui e ali, que te prende páginas a fio esperando respostas, o interesse a dificuldade e o esforço do protagonista em aprender húngaro, o casamento, e a relação com seu filho são os pontos chave do romance.
O livro é muito bem escrito, e trabalhado, quando você se dá conta quer saber o que vai acontecer, o livro segura o clímax de forma absurdamente bem feita, o que amarra os acontecimentos e te leva inevitavelmente ao final do livro que adianto: é repleto de surpresas, revelações interessantes, e confusões que fazem com que a ressaca literária seja extremamente comprida, quando se chega a última página, e você se dá conta de que acabou, dá pra se sentir perdido, sem rumo, porque o livro é tão fantasticamente bem construído que é de se ficar triste quando se chega ao final, você lê Budapeste sempre querendo mais, esperando por mais, por mais tiradas geniais, trechos bem construídos, é um novelo que você vai desenrolando e quando você termina de desenrolar você fica extremamente chateado, mas extasiado porque como dito o livro é muito bom.

Chico Buarque, famoso por suas composições musicais, seu engajamento político, mostra que é um artista muito versátil e grande escritor, seja em poesia, ou em prosa, e Budapeste mostra tamanha riqueza do cantor também em prosa, num texto que flui de forma excepcional porque é bem argumentado e usa todos os recursos estilísticos a seu favor.
Enfim, um livro tão maravilhoso que eu no seu lugar começaria a ler agora mesmo!

O livro virou filme em 2009, com o ator Leonardo Medeiros vivendo José Costa e Giovanna Antonelli dando vida a Vanda. O filme é muito bem realizado, e bem fiel ao livro, o que o torna também muito bom e vale a pena conferir após a leitura. Aqui deixo-vos o trailer: http://migre.me/e69kM
“Abri os olhos num sobressalto e vi o fotógrafo outra vez o revólver na mão, que estava trêmula; por um instante acreditei que não fosse a mão, mas o revólver a tremer ainda com meu tremor. Chegou-o à cabeça, tornou a baixa-lo, examinou, chacoalhou, abandonou-o no carpete, e para mim estava ótimo, passara a bebedeira e o tempo de bravatas. Já me dispunha a lhe dar um abraço, beijar a mão da lourinha, acompanhá-los até a porta, encher os bolsos dele com as garrafinhas do frigobar, quando o vi empurrando a arma com a ponta do pé, na minha direção. Deve ter descoberto que eu não falava húngaro, pois com muita ênfase repetia uns gestos semi-circulares. Queria dizer que a roleta-russa tinha girado no sentido horário e agora deveria reverter o giro, a começar por mim. Estava roubando, estava inventando uma regra absurda, eu queria protestar, mas nem sequer sabia dizer não em húngaro. Quem me socorreu foi a lourinha que tomou o revólver, tentou socá-lo de volta na mão do namorado, e aí ele chamou ela de vaca. Falou vaca com todas as letras, como nós latinos falamos vaca desde a Roma antiga, e concluí que o farsante também não falava húngaro coisa nenhuma. Era romeno, usava um medalhão de bronze no peito, uma argola na orelha, um anel em cada dedo, era um cigano romeno, e teve razão a lourinha em lhe dizer: sinto asco do teu espetáculo grotesco, ao menos foi isso que eu escutei. E a fim de vexá-lo, voltou a arma contra a própria testa e atirou sem pestanejar. Não havia bala, bem feito, ao cigano não restava alternativa; recolheu o revólver, apontou-o contra a têmpora, e quanto o balaço lhe arrombasse os ossos, calculei que a massa encefálica espirraria no cabelo da lourinha, ia ser nojento. Ia ser asqueroso, mas eu não conseguia deixar de olhar, e vi como se fechavam as dobradiças do seu dedo no gatilho, cheguei a ouvir ranger a mola do gatilho e clique. Neca, não morreu, jogou o revólver no meu colo, mostrou os dentes de ouro para a lourinha, em seguida ambos me encararam. E assim ficou evidente que por alguma artimanha, com alguma prestidigitação cigana, eles tinham reservado para mim a bala do tambor. Estavam de olho no meu dinheiro, desde o início, organizavam minha morte. E seria uma morte tão oportuna para eles quanto inglória para mim, o suicídio de um turista alcoolizado em Budapeste.” 

Indicação do Aion
[chega de chegar, depressa é muito devagar]