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sábado, 23 de fevereiro de 2013

50 (brinks) RAZÕES PELAS QUAIS VOCÊ NÃO DEVERIA GOSTAR DE 50 TONS DE CINZA



Sim, amados leitores, é tempo de falar desse extremo ao qual o mercado editorial chegou. A senhora dos seus 40 anos que vi no ônibus lendo que me perdoe, mas o seu suspiro pouco ortodoxo que lhe escapou ao virar uma página foi a gota d'água.

Eu vinha suportando muito bem a repulsa a 50 tons de cinza, porque ora, todos aqueles de quem afortunadamente me cerquei sentem-se da mesma forma. Mas há um momento em que uma página séria como a Posso te indicar um livro? não pode deixar de se manifestar e parece ser esse o momento correto. Surpreendentemente, aviso que esta será uma crítica comprida – a despeito da pouquíssima quantidade de coisas que se pode delinear do livro.

Seria importante mencionar que o livro é uma fanfiction da série Twilight, para que se possa esclarecer o perfil dos personagens (afinal, nem isso é idéia original da brilhante E.L. James). Mas eu gostaria de partir do próprio livro, sem estabelecer paralelos. À maneira da minha crítica de Jogos Vorazes, vou me ater apenas ao primeiro livro, uma vez que o texto ficaria demasiado extenso e complexo. E prometo que acabei os avisos da paróquia aqui.

Nós temos Christian Grey, jovem empresário bilionário, que nas palavras de E.L. James pretendia ser um pedaço de rapaz, e Anastasia Steele, jovem garota desajeitada, virgem, tímida e cursando o curso de Letras. Aqui temos o perfeito casal clichê que vem sendo retomado desde o romantismo, sendo ele dotado de todas as qualidades imagináveis que se desejaria num homem e ela basicamente sem nenhum atrativo. Nenhum. Nenhum. Nenhum. Ela gosta de ler, mas vamos pular essa parte para manter as conveniências.

Ele é um pretenso (já vou falar disso) sadomasoquista, um dominador, uma prática sexual e estilo de vida introduzido por E. L. James no livro buscando lhe dar um ar adulto. Conforme um vídeo que assisti, há uma definição da diferença entre Crepúsculo e 50 tons de cinza: no primeiro, as fãs aprendem a conquistar o benquisto galã Edward; em 50 tons de cinza, aprendem o que fazer com ele na cama.

Sem absolutamente motivo algum, ele decide que Anastasia Steele seria sua perfeita submissa. Há um problema aí: ela é virgem. Não tendo a mínima idéia do que seria sexo, Anastasia Steele não poderia ter a mínima idéia em seu imaginário limitado – que a autora tenta fomentar dando-lhe dois personagens interiores: sua consciência e sua "deusa interior" – do que seria ser uma submissa. No entanto, o charme magnético de Grey a faz caminhar um caminho sem volta, no qual os primeiros traços de sua sexualidade vão sendo definidos.

O livro trata-se basicamente da reafirmação de clichês cometidos pela autora de Crepúsculo sem o ar sobrenatural emprestado pelos vampiros e lobos; há a patética anulação da existência de Steele diante de Grey, e pasmem, a autora consegue fazer isso mesmo narrando na primeira pessoa da ingênua jovem e lhe emprestando ainda MAIS DOIS personagens. Você pode me perguntar: se Joaquim Manuel de Macedo podia fazer isso no Romantismo, porque E.L. James não pode?

Ora, por alguns básicos motivos. O primeiro deles é que o século 18 já passou, e a mulher já não se anula perante o homem. Ou pelo menos não deveria ser incitada a isso numa obra que bateu o recorde de mais vendido no espaço de uma semana. Sim, você leu direito. 50 tons de cinza foi o livro que mais vendeu numa semana desde 1998, quando os recordes começaram a ser registrados.

O segundo motivo é que E.L. James consegue ultrapassar as raias da Moreninha. Há um excesso de sublimação e afirmação da não-existência de Steele diante da magnitude de deus do Olimpo de Grey – e isso é tão inverossímil que o seu primeiro impulso é sacudir freneticamente o livro tentando fazer Steele esboçar uma reação – qualquer que seja – que não "Ai, ele é lindo" ou "ai, quero foder com ele".

Numa época onde a mulher era socialmente submissa ao homem, isso seria perfeitamente válido. Mas Grey chega a qualquer limite absurdo que seu dinheiro possa comprar – como perseguir a garota quando esta vai visitar sua mãe – e o pior de tudo é que Steele se compraz disso. As relações deles, longe de um acordo mútuo e consensual que acontece numa relação sadomasoquista, são mais parecidas com algo como um estupro mais ou menos concedido por uma garota que não entende de verdade o que está acontecendo – apenas sente que está perdidamente apaixonada por ele.

Desculpe pelas expressões menos eufemistas – que acredite, são mais obscenas que o livro em si. Uso-as numa tentativa de expor não apenas meu desgosto pela total falta de conteúdo da história, mas também por acreditar que elas expõe argumentos que vão além do: isso é uma droga. Embora seja.

O recurso pífio de tentar imprimir a confusão irritante e perene de Steele através de sua consciência e sua deusa interior, que "pensam" de maneira completamente diferente da protagonista falha não só por não atingir o objetivo como também por imprimir confusão ao texto – irônico né – que fica ainda mais mal-escrito. Não há uma única palavra mais exigente no léxico do texto. As cenas de sexo são tão mal descritas que Sidney Sheldon, o VERDADEIRO escritor de pornô da mamãe se revira no túmulo. E olha que Sidney Sheldon, apesar da questionabilidade de suas novelas, consegue ser infinitamente mais interessante. Até a coleção da Sabrina consegue atingir melhor o propósito (se é que você me entende) melhor do que E.L. James. Revelando aqui com exclusividade, uma das concorrentes ao cargo de nova indicadora reafirma (ou afirma) meu pensamento ao responder o questionário da página: o livro não consegue nem ser sexualmente excitante.

Não há qualquer importância nos demais personagens – nem no livro e nem no mundo de Steele, que apesar de surtos ocasionais, volta à mesma pamonhice que Grey lhe provoca, ao aviso de um email na caixa de entrada ou qualquer coisa assim. Sim, metade do livro é narrado através de emails; o que seria um recurso interessante perdido na maré de erros se não fosse seu conteúdo totalmente inverossímil.

Um outro viés de crítica do livro é seu próprio tema: uma relação sadomasoquista. É uma pena desavisar as senhorinhas de 40 anos, mas E.L. James vos enganou: não há sadomasoquismo algum na triologia. O que há é um "amarra-e-bate" de um cara neurótico e de uma garota inocente, que nem mesmo ao firmar um relacionamento "sadomasoquista" consegue acertar nos princípios da prática.

Primeiro porque esta não é uma prática de desavisados. No sadomasoquismo da vida real, a relação é um jogo consensual, onde cada um dos participantes tem total domínio do papel que lhe cabe; diferentemente do livro, que reafirma esteriótipos: o dominador como uma pessoa egoísta, cujo interesse sexual é fruto de uma perversão na vida passada e a submissa como uma pessoa anulada e sem domínio algum de seu corpo e subjetividade sexual.

Há igual valor entre dominador e submissa no jogo real: cada um depende do outro para obtenção de seu gozo; o que difere de E.L. James, que propõe uma garota que passa a denegrir-se ao erguer o dominador. A prática sadomasoquista – e aqui eu não defino em nenhum momento suas vertentes diferentes – passa por um criterioso período de ensino, respeito entre as partes e total consciência do que se faz; o que não ocorre em momento algum da trama.

A verdade é que a razão do sucesso do livro é justamente refletir um traço reprimido em seu público: a sexualidade da mulher de meia idade que o lê. Num mundo onde as damas foram ensinadas a entender seu próprio desejo sexual como um pecado, num mundo onde uma esposa não sabe o que é sexo oral e aceita calada que seu marido, insatisfeito pela própria insatisfação da esposa, busque uma fonte de sexo alternativa e por fim num mundo onde uma mulher admitir que o sexo é antes do homem do que de si própria, um livro que retrata as descobertas sexuais de uma jovem que exatamente se ajusta a esses padrões sexuais cai em cheio no gosto da população de leitoras do bestseller. Steele é a possibilidade de um escape, onde milhares de mulheres cuja vida sexual é um desastre a vêm como sortuda por encontrar um homem que a deseja e que não reprime o desejo da própria Steele.

Há centenas de fontes que analisam o sadomasoquismo não como uma perversão esteriotipada (da sociedade) nem como um jogo de amarra-e-bate sem consequências (como no livro) – mesmo fontes científicas. Há ainda vários livros que vem desde o século 19 que falam dessa mesma prática: cito O Marquês de Sade, que não fala de sadomasoquismo na forma atual mas fala do sadismo e do masoquismo enquanto idéias chocantes e surpreendentemente avançadas para o contexto social e religioso da época; ainda, os livros A História de O e Pamela, sendo o primeiro exatamente o livro que você deve ler se quer realmente ler sobre uma relação de dominação, submissão e sexualidade.

A História de O conta a história da jovem O (hehe), que levada por seu amante a um castelo onde ensinam-se mulheres a serem escravas disponíveis a mando do senhor, encontra-se sem nenhuma confusão na prática e embarca pela jornada onde seu prazer vem do prazer do dominador – sem jamais perder a consciência de que manda em si e naqueles que a dominam.

Ficam as dicas. Falar de sexualidade não é falar de uma mulher que se apaga, senhoras – mantenham isso em mente.

A única coisa que sou obrigada a admitir que é boa no livro é o desenterro de compositores clássicos para o público leigo - e as músicas escolhidas são boas, embora neste contexto tão lamentável.

Crítica da Amanda. A resenha do Aion sai amanhã - esses meninos estão mui relapsos essa semana.

[you see, but you don't, you never observe]

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Crítica - Jogos Vorazes



ATENÇÃO, esta não é uma indicação normal, é uma crítica

Estava eu na gloriosa fila do restaurante universitário quando interceptei uma conversa sobre Battle Royale (se você não conhece, não se desespere que já explico). É claro que a uma certa altura o tema Jogos Vorazes entrou em pauta e durou até mais ou menos conseguirmos sentar no restaurante, e você que sabe, sabe que isso demora.

Depois da conversa resolvi que já era mais que hora de fazer uma crítica. A título de informação, resolvi fazer essa crítica restrita ao primeiro livro, uma vez que incluir os outros dois tornaria o texto muito (mais) extenso e também porque gostei bastante do primeiro filme. Para os próximos livros, pretendo aguardar os lançamentos dos respectivos longas, dos quais o segundo, Em Chamas, tem previsão de estréia pra novembro do corrente ano.

Quando ouvi falar no filme, foi quase o céu. Uma nova série de ficção distópica com uma produção daquele montante no cinema? Corri assistir e foi ótimo, por uma série de combinações de aspectos positivos. O primeiro deles é a atriz escolhida para a protagonista Katniss Everdeen, a americana Jennifer Lawrence. Lawrence entra no filme apenas para tomá-lo para si, algo que ela executa de maneira brilhante, nos transmitindo a emoção e personalidade da personagem de maneira muito intensa e sugerindo uma pesquisa nos livros e em outras fontes que remetem à realidade do futuro distópico enquanto social, histórico e psicológico. A produção transcende infinitamente o livro, acrescentando elementos de criatividade e transmitindo novas sensações que põe em jogo aquela premissa básica de que o livro de origem é sempre melhor que o filme. No caso de Jogos Vorazes, julgo isso uma inverdade. Além desses dois aspectos primordiais, ainda acrescento a escolha de elenco, que também na minha opinião transcende o livro facilmente, a fotografia e construção de cenários, detalhes das roupas, enfim, tudo que caracteriza uma boa produção e que convenhamos, ficou bem melhor nas telas do que nas páginas. Por fim, é uma adaptação que não mergulha muito nos mistérios da cabeça dos personagens, mesmo de Katniss que é tão bem interpretada, ou seja, um tanto superficial. Ponto para o filme.

Isso soa meio herege, eu sei.

Estava eu animada com o filme e resolvi é claro, ler o livro. Me arrependi. Mas vamos lá. Apenas quero acrescentar que não vou explicar aspectos do enredo para facilitar a compreensão de quem não leu, e por isso vou presumir que se você lê uma crítica, já leu o livro e vai concordar ou não com o que digo.

Somos introduzidos a uma senhorita que narra em primeira pessoa, num futuro distópico clássico: exploração, um governo controlador, pessoas infelizes, alienadas pelo sistema, revoltadas e com medo, sem coragem de confiar no vizinho. É aí onde vive Katniss Everdeen, a protagonista. Ela é teoricamente uma garota independente, corajosa e forjada numa realidade aversiva, a total antítese da protagonista feminina comum. Aliás, seu parceiro de protagonismo e também tributo do distrito 12 é justamente Katniss ao contrário, Peeta, um garoto sensível e cheio de dedos sobre a vida e os fatos. É evidente que Peeta aceita que irá morrer e que isso não deveria atentar contra sua personalidade em vida.

O que eu acho meio decepcionante e puritano demais para um tema tão sólido que é o tema de Hunger Games. A proposta é (seria) ótima, mas há uma crescente disparidade entre projeto e construção conforme o livro avança. Acredito que seja forçado construir os personagens conforme foram construídos no livro (e no filme, mas é muito mais evidente no texto, como sempre). Essa é uma realidade de futuro distópico. Jogam 24 de vocês em uma arena mortal e você vem me falando de manter a integridade? Ok, bonito. Mas não nesse gênero. Não no meu pedaço.

Mas eu entendo, esse argumento é absolutamente questionável. No fim das contas, acabei chegando à conclusão que o livro lida com uma acomodação de interesses bem visível, qual seja, a vontade da autora de discutir um tema válido, sempre atual e a necessidade de eufemizar o que ela mesma está discutindo. Cria-se aí um paradoxo gigantesco, não só entre personagens, mas em personagem consigo próprio. Em Katniss isso é evidente: ela quer sobreviver. Sua família depende dela. Ela é dotada de certa rabugice e não é uma personagem apaixonante, mas isso se converte no erro literário (e não de mercado, veja bem) de mais pra frente fazer com que ela seja a heroína do leitor. Não há coerência alguma nisso: ela é rabugenta e quer sobreviver, mas é claro que se arrisca e se expõe para transportar um inválido Peeta ou considerar um suicídio ante a alternativa de acabar com o adversário e voltar para casa. Isso ao mesmo tempo em que lida com os sentimentos de um garoto apaixonado buscando elevar índices de audiência e conquistar patrocinadores. Só que não. É balanceamento de opostos em um nível muito além do aceitável para uma distopia.

Ao tentar revestir Katniss de autenticidade, a autora recobre-a de um verniz superficial, que é facilmente removido (e nem precisa de solvente) quando a narração se desenvolve. Ela é uma garota confusa, pintada pela autora para ser uma coisa, pela história é outra e por fim a percepção que você tem é de que Katniss é uma mentira. Vale mencionar por isso os longos dramas que ela desenvolve em sua consciência, no inglês original tão mal escritos que se parecem com aqueles devaneios que a gente tem quando fica olhando pro teto enquanto se está deitado na cama. O que vai contra absolutamente toda praticidade, dureza e objetividade que a autora projeta na protagonista logo de início. Uma pena.

Não defendo que Katniss seja uma psicopata sem coração, veja bem. Apenas acredito que demasiadas esperanças foram projetadas nela no início para serem quebradas na eufemização da realidade de Panem e dos Hunger Games, deixando um gosto ruim na boca de heroína revolucionária bonita e apaixonante, cheia de princípios.

Outra coisa absolutamente irritante, que irá se desenvolver nos outros livros mas que dá seus primeiros passos, é a presença de um triângulo amoroso. Do triângulo, o único que parece fruto de sua realidade é Gale, e você com toda razão, não gosta dele. Ele é arisco, egoísta e desconfiado. Há outro elemento do paradoxo Katniss aqui: uma garota que tinha tudo para ser misantrópica e que por anos via Gale absolutamente como amigo tem um surto amoroso durante e após um jogo mortal? Em que você mata todo mundo para sobreviver? No mínimo, um escorregão tremendo na falta de adaptação da personagem a seu meio. É bem recorrente que no futuro distópico haja envolvimento amoroso, eu sei, mas esse mesmo envolvimento é afogado pelas circunstâncias. E se seu parceiro te trair? Parece ingênuo demais criar amor num meio onde não há amor. Há um contexto psicológico de paranóia, dor e egoísmo muito intensos em um futuro distópico clássico, coisa que a autora prefere convenientemente esquecer pra eufemizar o texto.

Haymitch ali é o único personagem que parecer ter a ver com futuro distópico. Ele é sádico, bêbado e esperto, um fruto coerente de um jogo mortal. Que seja mencionado que alguns elementos da personalidade de vários personagens (infelizmente vistos na lógica paradoxal de Katniss) são ótimos e refletem a crítica proposta por Hunger Games. E é dessa crítica que eu quero falar.

O mérito da escritora é sem dúvida reaproximar os novos leitores do futuro distópico (eu tenho fé que você começa com Hunger Games mas termina com 1984 um dia) com um texto romântico, sem aqueles desagradáveis percalços mais rústicos, né (eufemizano, fla sério glr) e de linguagem de fácil acesso, extremamente simples e sem nenhum grande recurso literário notável. Mas esse mérito cessa na medida em que nada de bom na obra é original.

Primeiramente, Hunger Games, como todo futuro distópico, reporta-se a 1984 de George Orwell, com a alienação, a fome, o controle centralizado. Até aí tudo bem, nada da literatura é original depois de Homero. Mas Hunger Games é uma colagem de todos os grandes clássicos e não clássicos do gênero, unidos pela cola pegajosa do mercado editorial.

Comecemos com Battle Royale, um livro (mangá e filme) japonês em que num futuro, os jovens tornaram-se rebeldes e um programa de TV é inventado visando controlá-los. Todo ano, uma turma escolar é seqüestrada e enviada para uma ilha, onde devem lutar até a morte restando apenas um, espetáculo transmitido e controlado pelo governo. Aqui em Battle Royale, há uma evidente transformação dos personagens por seu meio: amigos que se conheciam há anos saem matando uns aos outros sem escrúpulos.
Além desse, há outros dois menos conhecidos: Senhor das Moscas e Zarrof, o Jogo Mais Perigoso. Brevemente, Senhor das Moscas trata-se de um monte de crianças abandonadas que lutam numa ilha pela sobrevivência. O Jogo Mais Perigoso reporta-se a Teseu e o Minotauro. E aí você me diz que nenhum desses livros remete ao poder de controle da mídia, dos Games, o imperialismo e etc. Ok.

Temos também Truman’s Show, um Big Brother vitalício onde todos os passos de Truman – que desconhece tudo que está acontecendo – são controlados por uma direção televisiva, desde sua esposa e amigos, todos atores, desde o seu nascimento.. Ainda, O Sobrevivente, em que um prisioneiro precisa escapar da morte num brutal jogo de TV. Ou o outro Sobrevivente, Series 7, onde pessoas são sorteadas para participar de uma competição televisiva brutal. E o conto The Lottery, de Shirley Jackson que conta um sorteiro realizado anualmente por todos os chefes de família, no qual o patriarca sorteado deve sortear um de seus filhos para ser apedrejado até a morte, remetendo às cenas da Colheita em The Hunger Games. E a lista não teria fim.

Colagem que é, Hunger Games tem apenas o mérito de trazer novamente a discussão da mídia, do futuro distópico e deixá-la sempre atual. A você, leitor, que quer elevar essa discussão a níveis mais elevados, eu tenho um conselho. Transcenda-o.
Obrigada por ter chego até aqui. Bom feriado.

Crítica da Amanda.


[you see, but you don’t observe]

domingo, 20 de janeiro de 2013

Morte Súbita - J.K Rowling – CRÍTICA


ATENÇÃO: ISTO É UMA CRÍTICA, NÃO UMA INDICAÇÃO NORMAL.

Eu sou uma grande fã de Harry Potter. Sim. Foi Harry Potter – embora eu goste de ressaltar que não exclusivamente – que me inseriu de forma tão profunda e apaixonada no mundo da literatura. De algum tempo para cá, porém, quando fui adquirindo maturidade literária e capacidade crítica, a partir da interminável lista daquilo tudo que já li, fiquei um tanto desapontada com a qualidade da escrita de J.K.

Eu ainda sou completamente apaixonada pela história de Harry Potter. Mas me convenci de que a série não passa disso: uma história. A autora teve grande habilidade de criar uma história, preenchê-lo com detalhes da sua imaginação e dar vida ao mundo da magia. Entretanto, a técnica e qualidade literária de J.K não parecem absolutamente sensacionais quando comparada a outros autores que também escrevem no mesmo gênero. Um exemplo bem claro é C.S. Lewis, de Crônicas de Nárnia. Lewis se utiliza de elementos e de características da escrita, de macetes que enriquecem sua obra deixando-a impecável em termos de narração e também construção da narração. J.K tem força inquestionável em termos de história, em termos de mundo ficcional. Mas a meu ver, ela deixa a desejar em recursos de escrita. É uma história bem narrada, e no fundo, nada além disso.

Por esses motivos eu aguardava Morte Súbita (ou Casual Vacancy, no inglês original) com tanta ansiedade. Ele seria um meio de provar que a minha autora favorita dos tempos de criança não merecia uma decepção tão grande na vida adulta. De provar que J.K sabia narrar com recursos literários e que podia se equiparar a outros que haviam se tornado meus autores favoritos.

Mas, como nem tudo é bom na vida, Morte Súbita foi em muitos aspectos, uma decepção. Nele se manifesta, é verdade, a capacidade tão bem conhecida da autora de nos prender a um livro como um bebê se prende à mãe – foram as 500 páginas em duas madrugadas. Você poderia me dizer então, que era uma história, uma narração incrível, e eu precipitadamente concordaria.

Mas não.

J.K nos introduz a Pagford, um distrito extremamente provinciano perdido num canto qualquer da Inglaterra. E aí começam os primeiros erros. Ou desapontamentos. J.K não foca a narração em um único personagem – tal qual Harry – e isso seria justificável pelo tipo de narração que se construirá; mas ela nos apresenta a personagens demais. Tantas famílias e sub-núcleos como os de uma novela. Você quase fica esperando o núcleo do humor, o núcleo pobre, o núcleo rico – e isso se verifica uma verdade depois que avança mais um pouco. São tantos personagens que o tempo todo foi necessário ficar voltando para conferir sobrenomes, famílias e ocupações, o que é extremamente desagradável no prosseguimento da leitura.

Mas Amanda, diversos autores de peso fazem isso. É verdade, pequeno forasteiro. O número excessivo de personagens não seria um problema se Rowling não demorasse TANTO para engatar finalmente a trama. A autora perde metade do livro – não estou exagerando, são 250 páginas – apenas para ambientar a quantidade imensa de personagens que criou. Até a metade do livro, há um excesso de narração que definitivamente não combina com o tipo de história que a escritora resolveu criar.

É uma narração exaustiva. E pouco ou nada acontece até a metade do livro, somos apenas ambientados aos personagens. Se isso tem a vantagem de finalmente não nos fazer ficar voltando conferir nomes e ocupações, por outro lado, descola totalmente da proposta de Morte Súbita.

Vamos ver se você me entende. A história trata de como a morte súbita de um homem, Barry Fairbrother pode mexer tanto com a vida local e política de Pagford. Esse tipo de narrativa, que a orelha descreve tão bem: quando a primeira peça da fileira de dominós cai, todas as outras vem abaixo, é exatamente o tipo de narrativa que se processa MUITO rápido. Não há tempo para perder metade do livro introduzindo. As coisas devem acontecer, ou você corre o risco de, como J.K., narrar demais.

As vias de fato só começam a ocorrer na história depois da metade. Quando isso acontece, podemos sentir quase a volta de Rowling na série Harry Potter: todos os dominós vão finalmente caindo.

Isso faz o livro ficar legal, Amanda?

Em termos, pequeno forasteiro. Apenas em termos. A capacidade narrativa não mais embotada pelo excesso de narração faz J.K brilhar, mas algo que vinha incomodando durante a primeira metade do livro torna-se na segunda algo irritante. E isso sepulta com a última pá de terra a minha decepão.

A mídia insistiu bastante na questão deste ser o primeiro romance “adulto” de J.K – a despeito do fato da saga Harry Potter ter sido tão lida que metade do seu público é necessariamente adulto. Fiquei curiosa com isso. Descobri que o “adulto” não se traduz em complexidade de trama e uma linguagem mais aprimorada – não, “adulto” quer dizer masturbação explícita, palavrões nos diálogos, vício em drogas, sexo, etc etc etc. Por meio de adolescentes estereotipados, Rowling acaba caindo na própria cilada: não são os adultos que cometem as adultices – são exatamente adolescentes da idade média de seu público de Harry Potter.

Ao pretender se distanciar de Harry pelo uso do sórdido e da vida real – da “autenticidade”, como seu personagem Bola Wall gostaria de completar – a autora esquece de dois pontos fundamentais: o primeiro, é que era óbvio que seu público não ia ser adulto. Seus fãs adolescentes são os que mais aguardaram o lançamento do livro. Isso tem a ver com a segunda consequência: ela desaponta exatamente esse público. Que não está amadurecido para temas que eram de autores da geração beat, temas que são buscados por um tipo diferente de leitor.

Ao escrever Morte Súbita, ela escreve na verdade um Harry que fala palavrão e é cheio da miséria humana. Porém, ela só dispunha de um livro para fazer aquilo que fez com tanto brilhantismo em sete. Ou seja, ela comete o erro de narrar demais em um livro só e ofuscar a ação com isso.

Que seja mencionado. As questões que ela levanta: o uso de drogas, a superficialidade das relações humanas e sua hipocrisia, a dor e a morte são muito bem levantadas. Ponto pra J.K. Pena que os pontos ficam só por aí.

Podem me matar nos comentários. Beijo galera!

Crítica da Amanda.